Academia das Letras

Resenha crítica – A arte da palavra por Juliana Sanches

A Arte da Palavra

Autor: Gabriel Perissé

A arte de ensinar

                O escrever metalinguístico relaciona-se diretamente com a própria arte da escrita – onde consagra-se a palavra e como essa deve ser transmitida a partir de anedotas e vívidos exemplos trazidos ao papel por meio do autor. Com sinceridade cômica de quem admira a arte escrita, porém prefere ensiná-la a praticá-la. Perissé aborda alguns estágios da construção do escritor e de sua identidade como tal em cinco capítulos da obra “A Arte da Palavra”. Feito professor no processo de construção do educando, direciona o escritor em caminhos por si mesmo – para que esse se resgate em sua própria prosa ou em seus próprios versos.

A priori, trata do ato de ser leitor – afinal, para que se entenda por quem e para quem se escreve, é preciso saber se sua própria escrita seria apta a recebê-lo. Dessa forma, a arte segredada ao leitor deve provocar sentimento de familiaridade, fazendo nascer sentimentos presos, ou mesmo escondidos, incitando mudança ativa no leitor – além de fornecer instrumentos para que o leitor se reconheça e se aprenda através da obra lida. Relaciono-me com tal conceito quando compreendo a forma como o professor ensina para que haja construção individual no aluno a partir do conteúdo absorvido – de certa forma, arrisco pontuar, a arte do ensino é a mais bela de todas elas.

Em segundo, o autor acorda a importância de encher-se até que transborde – para que as experiências lhe pertençam de forma efetiva e sejam passíveis de provocação íntima ao leitorado, havendo necessidade de que o autor seja pessoa honesta, escancarada até mesmo em seus grassos defeitos, compreendendo que tampouco o leitor estaria disposto a escutá-lo se não pudesse reconhece-lo válido. Assim, nota-se a importância de intensidade transbordante que inspire sem que lhe tire a legitimidade – a necessidade imprescindível de que o educador, tal qual o escritor, seja apaixonado por aquilo que ensina, apto a transmitir – de forma verídica e tempestuosa, ainda que organizada – tudo o que se propõe a compartilhar.

Continua, com discurso romântico – em prosa um tanto que poética – sobre a forma como a escrita define o escritor. É aquilo que o molda, que enxerga todas as nuances de seu próprio eu. Tal qual espelho de alta resolução, as próprias páginas são denúncias daquilo que se é, que se esconde e que se almeja alcançar. O idioma próprio do autor – sua identidade literária – compõem-se através de suas próprias mãos. Contudo, a mesma escrita que o empodera no processo de criação, o força a humilhação pois – para o escritor – escrever é uma questão de necessidade básica, tal qual alimentar-se ou hidratar-se. A satírica observação de todo educador, vejo eu: ensina-se porque há tanto que transborde de si e, ainda que não se ensine sobre si próprio, conhece-se a si mesmo a partir da forma como propicia o autoconhecimento daquele que o recebe nas vielas do pensamento; porém, ensina-se, acima de tudo, porque jamais saberia fazer de outra forma. Que seria o professor sem o aluno? Quem seria o educador sem educar?

Mantendo o bom humor agora já bem conhecido pelo próprio leitorado, Perissé cutuca a ferida do chamado escritor original – único em todas as suas canções linguísticas. Não há originalidade no processo criativo – como produto dos encontros experienciados durante a vida, sábia proclamação de Espinoza a muito tempo atrás, todo ser humano é composto de partes de outros. De igual forma, o escritor é aquele que educa – plagia-se criativamente a arte daqueles que o precedem, a forma de construção daqueles que o antecederam nesse processo. Deve-se, portanto, reconhecer a própria construção cultural com carinho e entender que a individualidade reside no processo, na maneira como apropria-se daquilo que já é e transforma-o novo, ou melhor, faze-o memorável.

Por fim, em despedida cheia de ansiedade e gostinho de quero mais Perissé apela, novamente, para os porquês de cada escritor. Infere a necessidade de apresentar seu conteúdo de forma convicta, provocando inspiração no leitorado – seja para o próprio processo de escrita ou de autoconstrução, como também a inspiração necessária para que volte a abrir-se para as palavras daquele mesmo autor. Sendo assim, enxerguei a arte de ensinar através dos prismas pintados por Perissé – com sabedoria pontuou a essencialidade da convicção. É preciso ser convicto para que seja útil, inspirador e inenarrável – seja nas páginas compartilhadas com o leitorado ou nos planos de ensino, a convicção que inspira é a que fornece instrumentos de operação para todos os verdadeiramente grandes.

 

Juliana Sanches

               

Veja também

Gostando dos conteúdos?

Receba as atualizações no seu e-mail! Insira seu endereço ao lado e não perca as novidades.

Obrigado por se inscrever! Em breve você receberá nossas atualizações no seu e-mail!
Ocorreu um erro interno neste formulário! Por favor, entre em contato com o responsável pelo site!