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Perto do coração selvagem

O livro Perto do coração selvagem é o primeiro romance de Clarice Lispector, publicado em 1944. O livro apresenta a trajetória de vida de uma mulher, e a maneira como uma sociedade machista e patriarcal a julga. A personagem Joana evolui na trama e supera os desafios que teve de enfrentar para tornar-se mulher, pois  “o romance parece apontar para uma nova concepção de sujeito, não mais identificado com uma racionalidade soberana, mas sim descentrado da consciência e aberto ao mundo imprevisível e ilimitado da consciência”.

Muitas mulheres idealizam o casamento desde muito novas e, quando não casam, sofrem, porque consideram que a sociedade as está julgando, uma vez que geralmente se diz que a mulher só alcança a felicidade quando está em um matrimônio. No caso de Joana, sua sociedade é extremamente sexista e, por isto, Joana acaba afrontando a comunidade por não aceitar esse destino pré-determinado.

Narrado ora em primeira pessoa ora em terceira pessoa, o livro não conta com uma ordenação cronológica na estruturação dos capítulos, recorrendo ao monólogo interior combinado com o estilo indireto livre para apresentar divagações de momentos marcantes, que servem para a construção da personalidade da protagonista. O universo de Joana é trazido para o leitor pela própria protagonista, que conta os caminhos que a levaram a sua individualização. Ao mesmo tempo em que contemplamos essa Joana, que aparenta ter nascido com características distintas da realidade da sociedade em que vivia, com valores, desejos e sonhos particulares que não se amoldam a sua educação, não se encontra nunca num lugar de passividade mesmo após associar-se nos papéis sociais esperados, como o casamento, por exemplo.

O livro inicia em uma manhã com uma personagem que podemos identificar como criança pela narrativa infantilizada, ao revelar que escuta o relógio do “papai”. Há, além disso, grande variedade de onomatopeias e repetição de palavras. Porém, percebe o mundo de maneira extremamente filosófica, quando tem uma epifania diante das “galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer”, como o própria Joana descreve, e imaginar as minhocas que espreguiçavam felizes por não saber que seriam comidas pelas galinhas que as pessoas iam comer (LISPECTOR, 1998, p. 7).

Após a epifania, Joana sai do quarto e caminha para a cozinha, onde encontra o pai, a quem apenas observa com medo que estivesse bravo. Quando nada acontece, começa a conversar sobre as poesias que fez sobre as minhocas e o sol. Outra percepção de mundo interessante de Joana é o fato de ela comparar a interpretação das atitudes de pessoas com um aspirador de pó: “difícil aspirar as pessoas como o aspirador de pó” (LISPECTOR, 1998, p. 7). A autora consegue integrar o leitor na narrativa, por meio das perguntas que introduz: “e sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer, compreende?” (LISPECTOR, 1998, p. 7).

Conforme o dia passa, percebemos que Joana é uma criança egocêntrica, pois “sempre arranjava um jeito de se colocar no papel principal exatamente quando os acontecimentos iluminavam uma ou outra figura” (LISPECTOR, 1998, p. 8). Além disso, a menina é distraída e sozinha, não conseguindo brincar com a mesma coisa por muito tempo, pois sempre algo a distrai fazendo com que comece outra brincadeira. O final do primeiro capítulo traz dois questionamentos que serão respondidos com o desenrolar da história, o primeiro dos quais tem que ver com a mãe de Joana, que não é mencionada sequer uma vez. Após o longo dia, que deixa Joana entediada diversas vezes, o pai entra em casa, vê a menina triste por nunca ter nada para fazer, a abraça e tenta consolá-la. Faz, por isso, a pergunta: “o que vai ser de Joana?” (LISPECTOR, 1998, p. 9).

No primeiro parágrafo do segundo capítulo, intitulado “O dia de Joana”, já é possível, pela narrativa, perceber uma Joana mais velha, pois não há onomatopeias, nem repetições de palavras; porém, há a curiosa percepção de um mundo diferente. Agora é Joana quem faz questionamentos sobre os sentimentos de uma pessoa má (LISPECTOR, 1998, p. 10).

No capítulo 2, descobrimos que Joana já está casada com um homem chamado Otávio; porém, Joana não é feliz no casamento, pois sente que ele lhe interrompeu a infância. Sente-se como um animal, por pensar dessa forma, e sabe que não deve deixar esse animal solto por causa da sociedade patriarcal em que vive:

Lembrou-se do marido que possivelmente a desconheceria nessa ideia. Tentou relembrar a figura de Otávio. Mal, porém, sentia que ele saíra de casa, ela se transformava, concentrava-se em si mesma e, como se apenas tivesse sido interrompida por ele, continuava lentamente a viver o fio da infância, esquecia-o e movia-se pelos aposentos profundamente só. Do bairro quieto, das casas afastadas, não lhe chegavam ruídos. E, livre, nem ela mesma sabia o que pensava. (LISPECTOR, 1998, p. 10).

 

Podemos ver na descrição que Joana só consegue se sentir livre e em paz quando está sozinha. Desta forma, pode refletir sobre a própria personalidade sem necessitar da ótica masculina que, por vezes, a reprime e poda. Ainda no capítulo 2, vemos Joana mencionar a tia, uma figura com quem viverá muitos conflitos no decorrer da narrativa, mas que exercerá forte influência moral sobre seus pensamentos mesmo depois de morta.

O quinto capítulo, intitulado “A tia”, apresenta um momento triste e decisivo na vida de Joana, a morte do pai. Enquanto a tia tenta lhe trazer consolo, Joana se esforça para se desvencilhar dela: “— Me deixe! — gritou Joana agudamente, batendo o pé no chão, os olhos dilatados, o corpo tremendo” (LISPECTOR, 1998, p. 20). Depois, recorre a uma reflexão solitária em busca de compreender a situação de maneira mais lúcida:

 

Devagar veio vindo o pensamento. Sem medo, não cinzento e choroso como viera até agora, mas nu e calado embaixo do sol como a areia branca. Papai morreu. Papai morreu. Respirou vagarosamente. Papai morreu. Agora sabia mesmo que o pai morrera. Agora, junto do mar onde o brilho era uma chuva de peixe de água. O pai morrera como o mar era fundo! compreendeu de repente. O pai morrera como não se vê o fundo do mar, sentiu. Não estava abatida de chorar. Compreendia que o pai acabara. Só isso. E sua tristeza era um cansaço grande, pesado, sem raiva. Caminhou com ele pela praia imensa. Olhava os pés escuros e finos como galhos juntos da alvura quieta onde eles afundavam e de onde se erguiam ritmadamente, numa respiração. Andou, andou e não havia o que fazer: o pai morrera. (LISPECTOR, 1998, p. 21).

 

O capítulo 6, intitulado “O banho”, é importante para compreender a relação entre a tia e a sobrinha. Neste capítulo, ocorre um episódio que mudará a trajetória da personagem. Após realizar o furto de um livro, apenas para satisfação de seus desejos, Joana afirma que furtará quando tiver vontade, pois se sente livre para fazer suas escolhas, e é ela mesma responsável por tudo o que faz.

 

— Sabe… sabe a palavra…?

— Eu roubei o livro, não é isso?

— Mas, Deus me valha! Eu já nem sei o que faça, pois ela ainda confessa! — A senhora me obrigou a confessar.

— Você acha que se pode… que se pode roubar?

— Bem… talvez não.

— Por que então…?

— Eu posso.

— Você?! — gritou a tia.

— Sim, roubei porque quis. Só roubarei quando quiser. Não faz mal nenhum.

— Deus me ajude, quando faz mal Joana?

— Quando a gente rouba e tem medo. Eu não estou contente nem triste. (LISPECTOR, 1998, p. 26).

 

Agora, responsável pela criança, a tia decide enviá-la para um reformatório com objetivo de “amansá-la”. As palavras para descrever a garota são demasiadamente severas: “pequeno demônio”, “víbora”, “víbora fria”, “um bicho estranho”, “sem amigos e sem Deus” (LISPECTOR, 1998, p. 27). Joana arqueja de raiva por essas afirmações e, com a notícia, recorre ao amparo do professor, pois nele encontrava uma figura tão amiga a ponto de se apaixonar por ele. Trata-se de um dos diálogos mais reflexivos do livro:

 

Ela continuava a ouvi-lo e era como se os seus tios jamais tivessem existido, como se o professor e ela mesma estivessem isolados dentro da tarde, dentro da compreensão.

— Não, realmente não sei que conselhos eu lhe daria, dizia o professor. Diga antes de tudo: o que é bom e o que é mau?

— Não sei…

— “Não sei” não é resposta. Aprenda a encontrar tudo o que existe dentro de você.

— Bom é viver…, balbuciou ela. Mau é…

— É?… — Mau é não viver…

— Morrer? — indagou ele.

— Não, não… — gemeu ela. — O que, então? Diga.

— Mau é não viver, só isso. Morrer já é outra coisa. Morrer é diferente do bom e do mau. (LISPECTOR, 1998, p. 28).

 

A protagonista podia entender a notável diferença entre viver e existir, e acha que a vida merece ser vivida. Nesse ponto, Joana também expressa uma clara inveja da esposa do professor, pois a sua própria presença era infantil enquanto a esposa marcava o ambiente e era uma representação da imagem feminina.

 

Olhou-a fugitivamente, abaixou os olhos cheia de raiva. Lá estava o professor de novo distante, a mão recolhida, os lábios puxados para baixo, indiferente como se Joana não fosse senão sua “amiguinha”, como dizia a mulher. (LISPECTOR, 1998, p. 29).

 

De novo a esposa entrou. Mudara de roupa para a noite, seu corpo forte e limitado agora atrás de uma fazenda azul. O marido olhou-a demoradamente, a expressão indefinida, um pouco estúpida. Ela suportou-lhe o olhar séria, enigmática, um meio sorriso atrás do rosto. Joana diminuiu, ficou pequena e escura diante daquela pele brilhante. Sentiu a vergonha da cena anterior tomá-la e reduzi-la ridiculamente. (LISPECTOR, 1998, p. 31).

 

O último capítulo da primeira parte descreve brevemente a aparência da protagonista, tratando-a como uma figura selvagem: “parecia uma gata selvagem, os olhos ardendo acima das faces incendiadas, pontilhadas de sardas escuras de sol, os cabelos castanhos despenteados sobre as sobrancelhas” (LISPECTOR, 1998, p. 42). Depois disso, a narrativa se volta para a “troca” do relacionamento entre Lídia, a primeira noiva de Otávio, e Joana, e como ele se apaixona por ela, ao vê-la acariciar uma cadela grávida, pois conseguira ver a doçura de sua pessoa, sua personalidade forte, desafiadora e livre. Essa percepção instiga, então, o rapaz a abandonar Lídia para se envolver com Joana. Claramente, porém, a protagonista não demonstra reciprocidade na relação. Em vez disso, o que transparece é certo repúdio ao casamento: “nunca terei, pois, uma diretriz, pensava meses depois de casada. Resvalo de uma verdade a outra, sempre esquecida da primeira, sempre insatisfeita” (LISPECTOR, 1998, p. 51).

No início da segunda parte do romance, os flashes continuam a versar sobre o casamento, quebrando alguns dos estereótipos mostrados até então sobre Joana, de mulher frígida, indiferente, pois mergulhamos em seu pensamento e testemunhamos sua reação sentimental aos acontecimentos. No princípio, sentia algo por Otávio e isso a afetava emocionalmente. Ela sabia que o amava. Entretanto, ao mesmo tempo, sabia que seu amor por si mesma era muito maior do que o que sentia pelo marido e, por isso, um dia, iria deixá-lo.

 

Encostou a cabeça no seu peito e lá um coração batia. Pensou: mas mesmo assim, apesar da morte, vou deixá-lo um dia […]. “Eu tirei tudo o que poderia ter. Não o odeio, não o desprezo. Por que procurá-lo, mesmo que o ame? Não gosto tanto de mim a ponto de gostar das coisas de que eu gosto. Amo mais o que quero do que a mim mesma”. (LISPECTOR, 1998, p. 55).

 

No capítulo 12, intitulado “A pequena família”, Otávio revela que se sente castrado por Joana e volta a se relacionar com Lídia, pois a amante representa justamente o estereótipo feminino da mulher que se submete ao homem e que o recebe de braços abertos, sem questionamentos. Otávio se cansa da liberdade de Joana porque não consegue domá-la. Certas vezes, olha para sua imagem e também a chama de víbora. Queria se tornar escritor, mas não conseguia, pois a presença da esposa sempre o diminuía. Contudo, Lídia engravida, o que causa um conflito, pois a amante envia um bilhete para que Joana a veja grávida. No encontro das duas, Joana fica transtornada com a gravidez.

 

Sua gravidez nascente boiava por toda a sala, enchia-a, penetrava Joana. Até aqueles móveis apagados, com os paninhos de crochê, pareciam guardar-se no mesmo segredo quase revelado, na mesma espera de um filho. Os olhos abertos de Lídia eram sem sombras. Que mulher bela. Os lábios cheios mas pacíficos, sem estremecimentos, como de alguém que não tem receio do prazer, que o recebe sem remorsos. (LISPECTOR, 1998, p. 70-71).

 

Porém, externamente, Joana não se deixa abalar pela situação. Age com altivez e frieza: “Joana afastou-o, subitamente saciada: — Bem — o tom da própria voz acordou-a desagradavelmente —, creio que está finda a entrevista” (LISPECTOR, 1998, p. 71).

Lídia quer o conflito e comenta que Otávio falava sobre sua maldade. Para revidar os ataques, Joana sugere que a rival arrume um emprego para que banque a maternidade sem precisar do sustento de um marido. Diz ainda que a amante pode ficar com o marido, mas só depois de ela mesma engravidar dele. Lídia se sente mal com a situação, pois Joana o enxergava apenas como algo funcional, um instrumento reprodutor. Ela rebate a crítica: “a bondade me dá realmente ânsias de vomitar” (LISPECTOR, 1998, p. 73). Este momento é muito emblemático, pois é a oposição de duas figuras femininas totalmente conflitantes: o estereótipo feminino construído por toda literatura até então (Lídia) e a imagem da mulher livre (Joana), a mulher que não tem medo de ser má.

No capítulo 15, perto do fim do romance, Joana se envolve com “o Homem”, cujo nome não aparece. Eles têm um caso breve, numa relação basicamente contemplativa: “o silêncio se prolongava à espera do que pudessem dizer. Mas nenhum dos dois descobria no outro o começo de alguma palavra. Fundiam-se ambos na quietude” (LISPECTOR, 1998, p. 80). Joana criava pequenas ficções que contava para o amante:

Joana falava sonolentamente no fim. Pelos olhos semicerrados o navio flutuava torto no quadro, as coisas do quarto espichavam-se, luminosas, o fim de uma dando a mão ao começo de outra. Pois se ela já sabia “que tudo era um”, por que continuar a ver e a viver? O homem, de olhos fechados, mergulhara no seu ombro e ouvia sonhando sem dormir. A intervalos ela escutava dentro do silêncio vivo da tarde de verão movimentos abafados e vagarosos no assoalho frouxo de madeira. Era a mulher, a mulher, aquela mulher. (LISPECTOR, 1998, p. 83).

 

O homem a deixa com um bilhete que não explica o motivo de sua partida. A protagonista se dá conta, então de que não conseguia mais compreender a si mesma:

Que palavra poderia exprimir que naquele tempo alguma coisa não se condensara e vivia mais livre? […] E agora… Talvez tivesse aprendido a falar, só isso. Mas as palavras sobrenadavam no seu mar, indissolúvel, duras. Antes era o mar puro. E apenas restava do passado, correndo dentro dela, ligeira e trêmula, um pouco da antiga água entre cascalhos, sombria, fresca sob as árvores, as folhas mortas e castanhas forrando as margens. Deus, como ela afundava docemente na incompreensão de si própria. E como podia, muito mais ainda, abandonar-se ao refluxo firme e macio. E voltar. Haveria de reunir-se a si mesma um dia, sem as palavras duras e solitárias… Haveria de se fundir e ser de novo o mar mudo brusco forte largo imóvel cego vivo. (LISPECTOR, 1998, p. 94-95).

 

Por fim, no último capítulo, intitulado “A viagem”, Joana se vê totalmente sozinha, sem Otávio e sem o Homem e faz uma viagem para se autoconhecer. Nesse trecho, já não há mais uma narração linear, apenas fragmentos de pensamentos, enunciados ora em primeira, ora em terceira pessoa, que refletem, poetizam e relembram toda sua trajetória. É o momento em que ela se realiza, pois atingiu o ápice de sua liberdade e consciência de si. Ao ver o mar, identifica-se com a imagem selvagem da vida:

Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo. (LISPECTOR, 1998, p. 100).

 

O livro começa como uma epígrafe de um homem, James Joyce, e se encerra com uma mulher encarnando esse papel, perto do coração selvagem da vida.

 

Clarice entendia que as mulheres não deveriam se rebaixar para se submeter às vontades da sociedade sexista. Essa posição transparece em suas obras, principalmente em Perto do coração selvagem, em que Joana se sentia má simplesmente pelo fato de não querer permanecer casada, e estranha por não querer aquilo que a sociedade diz que ela deve querer. Joana alcança, entretanto, a felicidade quando fica sozinha e só quando fica sozinha. Desta forma, a protagonista mostra que o sistema patriarcal não é o melhor para a autorrealização da mulher.

O que você acha da obra de Clarice?

Que inquietações ela desperta em você?

Como descreveria Joana?

E como imagina uma viagem que você faria pra se descobrir?

Responde pra gente!!!

 

Bianca De Faria e Leticia Mattos

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